Foto: VejaSP - Personalidade da Gastronomia 2005
Fortunée - ou Dona Touna (pronuncia-se Tuna), como é conhecida - chegou ao Brasil no final da década de 40, vinda de uma família turca judia, fugida da guerra. Ela logo se instalou no centro de São Paulo. Começou sua carreira como empresária e abriu o elegante Bar Symphonie, frequentado por um público que já se distinguia em São Paulo por sua sofisticação e cuidado na escolha de seus lugares preferidos.
Foi no Symphonie que Touna conheceu Roger Henry. Um conterrâneo, que também tentava a sorte no país novo. O ano era 1949 e Roger tinha acabado de chegar ao país graças aos esforços do irmão, o famoso músico Maestro Georges Henry da TV Tupi. Vinha buscar nova vida depois de passar anos como prisioneiro dos alemães durante a II Guerra Mundial. Trabalhara no Hotel Esplanada e, novamente com a ajuda fraterna, agora comandava seu próprio restaurante francês, o Le Provençal, na Rua Martins Fontes.
Casaram-se pouco tempo depois e decidiram por em prática todos os planos que tinham em comum. Juntaram suas expertises – ele como maître, por anos, do Hotel Georges V de Paris, ela como empresária de sucesso, sempre muito elegante, com um quê para a moda.
Em 1954, São Paulo já era a maior cidade do país e comemorava seu quarto centenário. No Largo do Arouche, endereço refinado, era primavera o ano todo. Por ordens do prefeito Jânio Quadros, floristas da Praça da República eram mandados para lá e suas mercadorias, muito mais à mostra que hoje em dia, traziam ainda mais beleza para a região.
Bem em frente às bancas de flores, nascia no número 346 o restaurante La Casserole. Desde o primeiro dia a casa esteve cheia e seguiu sempre cheia. Henry e Touna, juntos, levaram à nova casa o público que haviam conquistado em seus negócios separados em São Paulo.
Anos Dourados
O ambiente replicava aquele dos bistrôs franceses: um lugar confortável, acolhedor e familiar, para provar, sem pressa, pratos despretensiosos, porém deliciosamente clássicos. Os diversos chefs que passaram pela casa no início, vindos da França, aguçaram o paladar dos paulistanos.
Touna comandava o caixa e a equipe. Vestida com as últimas novidades de Paris na época, observava as idas e vindas do salão. Roger, um carismático e exímio anfitrião fazia questão de ele mesmo finalizar nas mesas pratos como Steak Tartare e Crêpes Suzette. Ele recebia os clientes com o mesmo requinte e categoria de seus anos na metria do Georges V, em Paris. Não tardou para o La Casserole virar um lugar conhecido pelo seu ambiente de bistrô, de comida de qualidade e frequentado por uma clientela exigente.
Pelas mesas do restaurante passavam não só famílias, casais, profissionais liberais e artistas, como também celebridades do naipe do ator Omar Sharif, o bailarino Rudolf Nureyev, o pintor Di Cavalcanti e o compositor Heitor Villa-Lobos.
O casal Henry comandou o restaurante durante os 33 anos, até decidirem-se pela merecida aposentadoria. Roger faleceu em 2005, deixando um importante legado. No mesmo ano Touna foi eleita Personalidade da Gastronomia pela revista Veja São Paulo. Em 2009 foi ela que deixou livre a sua mesa favorita do restaurante, para descansar em paz.
Desde 1987, Marie-France Henry, filha do casal, comanda com o mesmo carinho, dedicação e competência o restaurante inaugurado por seus pais, que acaba de completar 55 anos de sucesso.
Por Juliana Bichir - DENIBLOCHDIVULGAÇÃO
